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Cirurgia de estrabismo

É possível operar estrabismo mesmo sem enxergar de um dos olhos?

Mulher cobrindo um dos olhos com a mão, em um consultório oftalmológico.

Essa é uma das mensagens que mais recebo, no consultório e no Instagram. Geralmente vem de alguém que convive há anos, às vezes décadas, com um olho que enxerga pouco e que, com o tempo, começou a desviar. E, muitas vezes, vem junto com uma frase que essa pessoa já ouviu mais de uma vez: “não adianta operar, porque vai voltar”.

Por isso quero começar com a resposta direta: sim, é possível operar o estrabismo mesmo quando um dos olhos tem baixa visão ou não enxerga. E, para muita gente, essa cirurgia é o começo de uma nova relação com o próprio olhar.

Por que o olho que enxerga pouco costuma desviar?

Os nossos olhos trabalham em equipe. Para ficarem alinhados, o cérebro precisa receber imagens nítidas dos dois lados. Quando um dos olhos enxerga mal, ou perde a visão, ele deixa de participar desse trabalho em conjunto e tende a se desviar. Chamamos esse quadro de estrabismo sensorial.

Ele pode surgir por diferentes causas, como:

  • ambliopia (o chamado “olho preguiçoso”) não tratada na infância;
  • catarata, inclusive a catarata congênita;
  • alta miopia ou grande diferença de grau entre os olhos;
  • alterações do nervo óptico ou cicatrizes na retina, como as causadas por toxoplasmose;
  • traumas oculares.

Nas crianças, esse desvio costuma ser para dentro (convergente). Nos adultos, é mais comum que o olho desvie para fora (divergente). Em alguns casos, o desvio também pode ser vertical.

O que a cirurgia pode fazer, e o que ela não faz

A cirurgia de estrabismo é feita nos músculos que ficam por fora do olho e que comandam os seus movimentos. A cirurgia também não altera o grau dos óculos.

É importante alinhar as expectativas com honestidade: a cirurgia não devolve a visão que foi perdida, nem melhora a visão de um olho que enxerga pouco. O que ela faz é reposicionar o olho, trazendo de volta o alinhamento do olhar.

E isso, na prática, costuma significar muito:

  • voltar a conversar olhando nos olhos das pessoas, sem receio;
  • sentir-se mais à vontade em fotos, entrevistas e reuniões;
  • recuperar a autoestima e a segurança nas relações sociais e no trabalho;
  • em alguns casos, melhorar incômodos funcionais, como visão dupla ou a posição de cabeça que a pessoa adota para compensar o desvio.

O estrabismo não impacta apenas a visão. Ele impacta a postura, a confiança e a forma como a pessoa se apresenta ao mundo. Alinhar os olhos é também alinhar a forma como você se enxerga.

“Mas vai voltar?” Vamos falar sobre recidiva

Essa é a dúvida mais comum, e ela merece uma resposta clara. Como a visão do olho afetado não é recuperada, ele continua sem o “estímulo” que ajuda a mantê-lo alinhado. Por isso, pessoas com baixa visão em um olho têm uma chance maior de que o desvio retorne com o passar do tempo: algo em torno de 20% a 30% dos casos.

Agora, olhe esse número pelo outro lado: isso significa que cerca de 70% a 80% dos pacientes não precisam de uma nova cirurgia. A maioria alcança um bom alinhamento e um resultado estético satisfatório já no primeiro procedimento.

E, se o desvio voltar, é possível operar novamente, com segurança. Uma reoperação não é um fracasso: é mais uma etapa do cuidado. Por isso, quando alguém me conta que ouviu “não opere porque vai voltar”, eu costumo dizer que esse é um dos piores conselhos que se pode receber. Se o desvio incomoda e afeta a sua vida emocional e social, vale muito a pena conversar sobre o tratamento.

Opera-se só o olho que não enxerga?

Em muitos casos de baixa visão importante em um dos olhos, é possível concentrar a cirurgia no olho afetado, preservando o olho que enxerga bem. Mas essa não é uma regra: dependendo do tamanho e do tipo do desvio, operar os dois olhos pode trazer um resultado mais simétrico. Essa decisão é sempre tomada de forma individual, depois de um exame completo.

Existe idade limite?

Não. O estrabismo pode ser corrigido em qualquer fase da vida, e as chances de sucesso da cirurgia são semelhantes em crianças e adultos. Recebo com frequência pacientes que convivem com o desvio há 20 ou 30 anos e que só agora descobriram que existe um caminho.

Já nas crianças, o olhar precisa ser ainda mais atento. Um desvio pode ser o primeiro sinal de uma doença que está atrapalhando a visão, e tratar cedo faz toda a diferença para o desenvolvimento visual. Por isso, toda criança que desvia os olhos merece uma avaliação oftalmológica o quanto antes.

Como é a cirurgia e a recuperação

A cirurgia costuma durar entre 30 e 40 minutos. Nos adultos, geralmente é feita com anestesia local e sedação; nas crianças, com anestesia geral. Não há necessidade de internação: o paciente vai para casa no mesmo dia.

Sempre que o caso permite, utilizo a técnica minimamente invasiva, com incisão via fórnice, que deixa as incisões menores e mais escondidas e torna o pós-operatório mais confortável.

O desconforto costuma ser maior nos dois ou três primeiros dias e é controlado com colírios, compressas geladas e medicação. Muitos adultos voltam às atividades do dia a dia em poucos dias, evitando apenas esforços físicos intensos nas primeiras semanas, conforme a orientação médica.

Cada história é única

Já acompanhei um jovem de 25 anos, com baixa visão por uma cicatriz de toxoplasmose, que tinha ouvido que não deveria operar. Uma paciente que, depois de 20 anos com o olho desviando para baixo, voltou ao trabalho poucos dias após a cirurgia e se livrou da visão dupla. E uma jovem com baixa visão, nistagmo e estrabismo desde a infância que, depois da cirurgia, deixou de entortar o pescoço e passou a se sentir mais segura para conversar com as pessoas.

Nenhum desses casos é igual ao outro, e nenhum resultado pode ser prometido de antemão. Mas todos têm algo em comum: um tratamento pensado para aquela pessoa, com expectativas reais e muito cuidado em cada etapa.

Se você convive com um olho que enxerga pouco e com um desvio que incomoda, saiba que você não precisa carregar isso para sempre. O primeiro passo é uma avaliação completa e individualizada; e podemos fazer esse primeiro contato presencialmente ou por teleconsulta!

Perguntas frequentes

A cirurgia de estrabismo pode fazer o olho voltar a enxergar?
Não. A cirurgia atua nos músculos externos do olho e corrige o alinhamento. Ela não recupera a visão perdida nem melhora a visão de um olho com baixa visão.
Operar o olho que não enxerga pode prejudicar o olho bom?
O risco é muito baixo, porque o procedimento é feito por fora do olho, na musculatura. Em muitos casos de baixa visão importante, a cirurgia pode ser concentrada apenas no olho afetado. A indicação é definida na avaliação.
Qual a chance de o desvio voltar?
Em pessoas com baixa visão em um olho, a chance de o desvio retornar fica em torno de 20% a 30%. A maioria dos pacientes mantém um bom alinhamento, e, se necessário, é possível operar novamente.
Adultos que têm estrabismo desde a infância podem operar?
Sim. O estrabismo pode ser corrigido em qualquer idade, com chances de sucesso semelhantes às da infância. Nos adultos com ambliopia antiga, a cirurgia melhora o alinhamento e a estética, mas não recupera a visão.

Assista ao vídeo

No meu canal do YouTube, eu também respondo: “Não enxergo de um dos olhos e tenho estrabismo, posso operar?”

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma consulta médica. Os resultados variam de acordo com cada caso, e a indicação de tratamento depende de avaliação individual.

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