"Doutora, eu tenho estrabismo desde criança. Ainda dá tempo de operar?" Essa é uma pergunta que eu escuto com muita frequência no consultório.
A resposta é sim. Não existe idade limite para corrigir o estrabismo. Adultos de 20, 40, 60 anos ou mais podem fazer a cirurgia e se beneficiar dela.
Neste post, eu explico por que vale a pena tratar o estrabismo na vida adulta, como a cirurgia é feita e o que esperar da recuperação.
Estrabismo em adultos: de onde ele vem
O estrabismo no adulto pode ter duas origens principais.
- Estrabismo desde a infância: muitos adultos convivem com o desvio desde criança. Alguns nunca foram tratados, outros fizeram cirurgia na infância e o desvio voltou com o tempo.
- Estrabismo que surgiu na vida adulta: o desvio pode aparecer depois de alterações nos nervos ou nos músculos dos olhos, doenças da tireoide, diabetes, traumas ou outras condições de saúde.
Quando o estrabismo aparece de repente no adulto, principalmente com visão dupla, é importante procurar uma avaliação logo, para investigar a causa.
"Já passou da idade?" Um mito comum
Muita gente acredita que o estrabismo só pode ser tratado na infância. Isso não é verdade.
O que muda com a idade são os objetivos do tratamento. Na criança, além de alinhar os olhos, buscamos proteger o desenvolvimento da visão. No adulto, a cirurgia continua sendo capaz de reposicionar os músculos e alinhar os olhos, trazendo benefícios funcionais e estéticos.
Os benefícios da cirurgia no adulto
A cirurgia de estrabismo no adulto não é só uma questão de aparência. Ela pode trazer ganhos reais no dia a dia:
- Fim ou redução da visão dupla, nos casos em que ela está presente.
- Ampliação do campo visual, principalmente em quem tem o olho desviado para dentro.
- Melhora da postura da cabeça, em pessoas que viram ou inclinam a cabeça para compensar o desvio.
- Possibilidade de recuperar parte do uso conjunto dos olhos, em alguns casos.
- Mais conforto no contato visual, com impacto na autoestima, nas relações pessoais e na vida profissional.
Muitos pacientes adultos me contam que passaram anos evitando fotos, desviando o olhar nas conversas ou se sentindo inseguros em entrevistas de emprego. Corrigir o desvio pode mudar a forma como a pessoa se vê e se relaciona.
Como é feita a cirurgia
A cirurgia de estrabismo é feita nos músculos que movimentam os olhos. O olho não é retirado do lugar. O que fazemos é reposicionar, enfraquecer ou fortalecer os músculos necessários para alinhar o olhar.
Sempre que o caso permite, eu utilizo a técnica fórnice, uma técnica minimamente invasiva, com incisão escondida sob a pálpebra. Ela tende a deixar o pós-operatório mais confortável e o olho com aspecto mais natural nos primeiros dias.
O tipo de anestesia, o planejamento e o número de músculos operados são definidos de forma individual, depois de uma avaliação completa.
Como é a recuperação
Na maioria dos casos, a cirurgia é feita em regime de day clinic, e o paciente volta para casa no mesmo dia.
Nos primeiros dias, é normal sentir:
- olhos vermelhos;
- sensação de areia ou incômodo leve;
- um pouco de lacrimejamento.
Esses sintomas costumam melhorar ao longo das semanas. A volta ao trabalho e às atividades do dia a dia é orientada caso a caso, mas costuma acontecer em poucos dias.
E se um dos olhos enxerga pouco?
Muitos adultos com estrabismo têm um olho com visão mais baixa, a chamada ambliopia ou "olho preguiçoso". A cirurgia alinha os olhos, mas não recupera a visão desse olho na vida adulta.
Mesmo assim, a correção do desvio pode ser feita. Eu explico melhor esse assunto no post É possível operar estrabismo mesmo sem enxergar de um dos olhos?
Em resumo
Nunca é tarde para tratar o estrabismo. A cirurgia em adultos é segura, pode ser feita em qualquer idade e traz benefícios que vão além da estética: mais conforto visual, melhora da postura e mais segurança no dia a dia.
Cada caso é único, e os resultados variam de pessoa para pessoa. Por isso, o primeiro passo é sempre uma avaliação completa, para entender a causa do desvio e montar o melhor plano para você.